Quando você é um contador de histórias da Disney, sabe que vai ter dias bons e, alguns, não tão bons quanto gostaria. Criar uma história convincente para um longa-metragem de animação pode ser um desafio frustrante, especialmente se o seu diretor for ninguém menos do que Walt Disney, o “Grande Mestre”. Walt foi um editor de histórias que tinha um talento nato e instinto inigualável na hora de criar sequências cinematográficas atraentes e convincentes. Ele sempre sabia quando as histórias dariam certo, cativando e emocionando a plateia. Mas se você não entregasse o que prometeu, ou pior, se criasse algo de mau gosto, era muito provável que acabasse tendo problemas.
Tudo começou em uma das tantas reuniões que tivemos com Walt para trabalhar em “Mogli, o menino lobo”, em 1966. Ele não parava quieto em sua cadeira, como se algo o incomodasse, e batia os dedos na mesa impacientemente. Quem já participou de alguma reunião com Walt sabe que isso não era bom sinal. Os storyboards estavam bons e o novo personagem tinha boas possibilidades de tornar o filme engraçado. Além disso, os roteiristas estavam dando o tom perfeito, mas simplesmente faltava algo.
Desenho de Walt Disney feito por Floyd Norman
Isso não era raro. Walt precisava se convencer quando se sentia insatisfeito com algo. Mas o diretor Woolie Reitherman tinha uma última carta na manga e disse que o diretor de animação, Milt Kahl, queria começar a trabalhar em um personagem bastante engraçado. Assim que esse gênio desse vida à criatura, certamente, seria hilariante.
Walt cedeu meio a contragosto e deu permissão para a próxima etapa dos storyboards, ou seja, os esboços da história seriam reunidos para formar o que, naquele tempo, era conhecido como “leica” ou “story reel”. Assim que o material estivesse pronto, o “Grande Mestre” daria uma olhada.
Após algumas semanas, Walt estava disponível para outra reunião. Porém, ela ocorreu na sala de projeção do terceiro andar do prédio de animação. Como era de costume, Walt entrou na sala tossindo alto. O chefão sentou-se ao lado de Reitherman, Larry Clemmons e outras grandes personalidades. Eu fiz o possível para sentar bem longe de Walt porque, especialmente nesse dia, preferia não ser visto.
É provável que ninguém conheça essa sequência de “Mogli, o menino lobo”, da qual estou falando, porque nunca foi exibida. Na verdade, fora o pessoal da equipe do filme, quase ninguém viu a sequência de Rocky, “O Rinoceronte”. Ela não causou o efeito esperado no estúdio e Walt detestou cada minuto da apresentação.
Assim que o projetista desligou o projetor e acendeu as luzes, podia-se ver que Walt não estava nem um pouco satisfeito. Ele já tinha demonstrado toda a sua indignação com os storyboards e novamente foi submetido a uma apresentação lastimável. Era praticamente torturante assistir à sequência do rinoceronte. Não é preciso dizer que a maioria de nós saiu de fininho para não ter de ouvir o que Walt diria aos nossos superiores. Procuramos sair discretamente da sala para voltar às nossas mesas, aliviados por não ter de participar dessa situação desagradável.
Alguns meses depois, conseguimos concluir o trabalho de “Mogli, o menino lobo” e várias pessoas me disseram que é um belo filme. Certamente, nunca souberam da história dos famosos rinocerontes que foram parar na sala de corte de Walt Disney.
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